Sabemos que não é de bom tom falar dos pecados alheios. Felizmente, para nós que precisamos escrever um texto por dia, o mundo e o tempo presentes não exigem bom tom para quase absolutamente nada. Falar da vida alheia virou, há tempos, a ocupação principal e favorita de muita gente. Mais que isso, virou fonte de renda. Por outro lado, é o preço a pagar por aqueles que atingiram, de alguma forma, visibilidade e sucesso, seja por mérito ou por acaso.

Figuras públicas dividem-se entre os figurões, aqueles que, atingido o objetivo do estrelato, procuram esconder-se de todas as formas, exceto naquilo que lhes convém e aqueles que buscam visibilidade e exposição a qualquer preço, cujos maiores exemplos, não os únicos, são as onipresentes subcelebridades. No caso do post de hoje e nos próximos, trataremos dos três pecados “capitais” de um expoente do primeiro grupo, senão, a maior figura pública, para os brasileiros entre 40 e 110 anos.

Roberto Carlos Braga é o artista de maior sucesso da história da música brasileira. Há mais de 50 anos, não há um dia sequer que uma música sua não seja tocada nas rádios de todo o país. Programas diários ou semanais inteiros são dedicados a sua discografia. É o sonho de qualquer jornalista conseguir entrevistá-lo, ainda que Glória Maria desperdice essa oportunidade todos os anos, preferindo babar, fazer caras e bocas e falar tolices ao invés de fazer perguntas. 

Todo esse sucesso não é sem motivo e sem árduo esforço. Talentoso e inspirado compositor; afinado e emocionante intérprete; profissional exigente e diligente. Em seus, cada vez mais raros, discos e shows, entrega o que promete e o que deseja a sua enorme legião de fãs. É quase uma unanimidade dentro e fora do meio artístico.

Onde está o primeiro pecado, então? Por essas ironias da vida, está justamente onde Roberto é grande: no lado artístico. Apesar das inegáveis qualidades, já mencionadas, e de tantas outras, que, por certo, ele tem, Roberto não é, nem nunca foi, um artista inovador. Sempre esteve preso a fórmulas e formatos cuidadosamente ligados à perpetuação de sua imagem como artista popular e previsível.  Desde sua primeira gravação em 1959, o single “João e Maria”, até seu último disco com músicas inéditas lançado em 2003, em nenhuma ocasião um disco de RC foi considerado algo novo em termos de tendência musical ou criador de alguma corrente ou novidade no cenário da música brasileira ou latina.

Na fase inicial do sucesso, entre 1963 e 1966 – início e auge da Jovem Guarda ─, a prioridade, claro, tinha que ser firmar-se entre os grandes e buscar maximizar ganhos financeiros depois da longa batalha atrás de oportunidades. A qualidade artística, não que fosse totalmente ausente, poderia esperar. Deu certo, para o bem dele e da MPB. No período seguinte, houve a única mudança significativa na carreira de Roberto que, não por acaso, rendeu os melhores discos de sua carreira: antológicos, definitivos e presença constante nas listas de melhores discos da história da música brasileira.

De 1967 a 1971, surgiram rocks , baladas, souls, blues e muitas canções românticas, todas com temáticas mais adultas que as da Jovem Guarda, com qualidade de letras, músicas e arranjos incomparáveis com as carreiras passada e futura do Rei.  Difícil dizer qual foi o melhor disco do período, aquele, que pelo raciocínio aqui construído, seria a obra prima de Roberto. Eu apostaria em “O Inimitável” (1968) e “Roberto Carlos” (1971), este último por “Detalhes” e pela bela capa.  Entretanto, todos os cinco discos do período tiveram canções belas e inesquecíveis e, entre outras maravilhas, o de 1969 ajudou a projetar um gênio: Tim Maia, o autor de “Não vou ficar”. Não é uma questão de quantidade, visto que um único desses cinco discos já colocaria RC em qualquer antologia da MPB. No total foram 41 discos de estúdio e quase uma centena com regravações, shows ao vivo e participações especiais, além de alguns singles mais recentes.

Num tempo, anos 70, que as capas e, por vezes, os títulos, dos discos  eram, artisticamente,  tão importantes e significativas quanto o conteúdo, Roberto insistiu em capas medíocres e comuns com fotos suas, geralmente triste. Os títulos não ficavam atrás em falta de originalidade. A maioria tinha o título “Roberto Carlos”. E só. Exceto no caso das cinco obras primas, as capas e títulos anunciavam o que poderia se esperar de cada disco: o Roberto Carlos de sempre. Muito pouco para quem viu capas e títulos icônicos como  “Sgt Pepper`s Lonely Hearts Club Band” (1967), “Nervos de Aço (1973) e “A Tábua de Esmeralda” (1974).

A partir de 1972, começa a cair a qualidade do repertório do Rei, até que em meados dos anos 80, praticamente desaparece o grande criador e compositor, surgindo em seu lugar um compositor de temas escolhidos mercadologicamente, ou talvez por gosto pessoal, como meio ambiente, religião, erotismo bem comportado, profissões e as oportunistas “homenagens” a mulheres fora do padrão “Playboy”.  Ressalte-se que a genialidade, independentemente de seu conservadorismo, permanece em RC, porque mesmo, nesses períodos sombrios, ainda pode se garimpar raras belíssimas canções como “O show já terminou”, “Outra vez” e “Emoções”, entre outras. 

Enfim, ninguém é perfeito. Nem mesmo um Rei.

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Celia Mudo
Celia Mudo
7 meses atrás

Histórico parte 1, preparado com cuidado, da vida artística do Roberto Carlos.Ele mesmo deveria lê -lo.
No tempo da Jovem Guarda e ainda depois, ele era um dos meus cantores prediletos. Daí se tornou, com o tempo, repetitivo. Muitos outros artistas brilharam pelo seu conteúdo, no mesmo percurso, com muito mais qualidade poética e musical. Mas o Roberto, não sei se por destino ou carisma sem igual, esculpiu um espaço único dentro da música no Brasil.
Muitas canções dele marcaram-nos para sempre, é muito bom ouvir. Quanto à capa de discos, o Sargent Pepper’s talvez seja a melhor das que conheço, de acordo com a qualidade da criação musical contida.

Anônimo
Anônimo
7 meses atrás

Fez parte da minha adolescência. Vibrei, chorei, sorri, me emocionei…..sofri qdo ele se casou, vivi aqueles momentos como uma adolescente da época.

Anônimo
Anônimo
7 meses atrás

Entre um santo que se renova, mas não me agrada, e um pecador que se repete, mas me seduz sempre… fico com o pecador. VIDA LONGA AO REI!

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