Quem melhor definiu as consequências do Ciclo do Ouro, ocorrido no Brasil entre o final dos séculos XVII e XVIII, foi o escritor uruguaio Eduardo Galeano, que escreveu: “o ouro brasileiro deixou buracos no Brasil, templos em Portugal e fábricas na Inglaterra”. Há muito de verdade na frase do escritor. A Inglaterra colheu os melhores benefícios, favorecida pelo Tratado de Methuen, ou “Tratado de Panos e Vinhos”, pelo qual a Inglaterra comprometia-se a comprar os vinhos portugueses, enquanto Portugal se obrigava a comprar os têxteis produzidos nas fábricas britânicas. Com a balança comercial fortemente favorável aos ingleses, a economia portuguesa tornou-se altamente dependente e deficitária. Assim, o ouro brasileiro escoado para Portugal acabou sendo usado pela perdulária corte portuguesa para a construção de templos e palácios, mas, sobretudo, para pagar os vultosos empréstimos tomados à Inglaterra. Ouro, que ajudou a financiar a primeira Revolução Industrial.

Entretanto, felizmente, para nós brasileiros, essa não foi a única consequência do ciclo do ouro. A mudança do eixo econômico do litoral nordestino para o interior e a mudança da capital de Salvador para o Rio de Janeiro foram decisivas para a consolidação do país. O surgimento de novas e grandes perspectivas econômicas alteraram os padrões sociais e culturais da época, abrindo caminho para o processo da independência política no século XIX. A elite mineira, ao mandar seus filhos estudarem na Europa, travou contato com o Iluminismo. Livros científicos e artísticos, com as novas ideias passaram a circular naquela região da Colônia. Até a escravidão experimentou mudanças: para os escravizados, o ouro trouxe a esperança da liberdade e o surgimento de uma camada de libertos.

É nesse contexto histórico e cultural, que nasce no dia 29 de agosto de 1738 (ou 1730), na cidade de Vila Rica, atual Ouro Preto, então capital da Província de Minas Gerais, o menino Antônio Francisco Lisboa. Filho ilegítimo de um arquiteto português e sua escrava Isabel, e por essa condição, alforriado no batismo, Antônio cresceu junto à família paterna. Com o pai, tios e irmãos aprendeu, na prática, todos os ofícios que o fariam famoso, além do domínio das contas e das letras, inclusive um pouco de Latim.  Arquiteto, escultor e entalhador, é considerado o maior representante do barroco brasileiro, sendo conhecido por suas esculturas em pedra-sabão, entalhes em madeira, altares e igrejas. Entre 1760 e 1810 criou uma obra, sem paralelo no Brasil colonial, reverenciada por críticos de arte do mundo inteiro, que lhe reconhecem o talento e a importância para a arte ocidental. Para alguns, ele é o Michelangelo americano, assim descrito nas palavras de Sabrina Nunes: “um gênio renascentista desgarrado no sertão de Minas Gerais, um gênio da mistura, um gênio mulato; um gênio com a cara do Brasil.”

Tendo como central a religiosidade, as obras e imagens sacras que produziu se caracterizam pelas cores, leveza, simplicidade e dinamismo. Espalhadas nas cidades mineiras de Ouro Preto, Tiradentes, São João Del Rei, Mariana, Sabará e Congonhas, essas obras formam um conjunto de identidade singular, em que se destacam a expressividade dos rostos e corpos, seus contornos, curvas e detalhes; os planos longos dos corpos em tamanho real; músculos e veias expostos e rostos inspirados em gente do povo. 

A série de 12 profetas esculpidos em pedra-sabão, na cidade de Congonhas, é uma das mais completas da tradição cristã em todo mundo. No mesmo espaço, estão as seis capelas do Passos da Paixão com suas 66 figuras de um realismo hipnotizante, que leva o espectador a reviver o mistério da Paixão. Junto com a igreja, cujo projeto de arquitetura e ornamentação, também, é obra de Antônio Francisco, elas formam o complexo do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, designado pela UNESCO, em 1985, como Patrimônio Cultural da Humanidade. De igual valor histórico e artístico, além de comparável beleza, a igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, é considerada, por vários especialistas, a obra-prima da arte colonial brasileira. 

Antônio Francisco foi o responsável pelo projeto arquitetônico e pela majestosa fachada principal da igreja, além dos púlpitos, do lavabo da sacristia e das talhas dos altares da nave. Outros artistas contemporâneos e posteriores contribuíram para a execução desse monumento, marco de um dos mais importantes períodos da História da Arte. O Brasil tem muito a se orgulhar dessa gente mineira.

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Celia Maria da Penha Mudo
Celia Maria da Penha Mudo
1 mês atrás

( Um gênio renascentista…) Antonio Francisco Lisboa. No words.Sr Humberto.Que surpresa maravilhosa. Um dos maiores artistas do mundo sendo festejado em um texto de primeira categoria. Poderias escrever logo livros. Imensa gratidão pela lembrança. Salve Minas!

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