Ela está no poder há 15 anos, como Chanceler da Alemanha, cargo que representa a Chefia do Governo. Venceu quatro eleições consecutivas desde 2005 e, por vontade própria, resolveu abandonar o poder e a política no final de 2021. Durante seu governo enfrentou crises de toda espécie e deixou sua marca, não apenas em defesa dos alemães, mas, também, de todo o mundo ocidental. Nos turbulentos anos Trump, quando a liderança americana se fez ausente no mundo, ela chamou para si, de forma corajosa e humanitária o enfrentamento da crise dos refugiados, que acolheu como nenhum outro país fez; liderou a EU na negociação do Brexit, assim como fizera na crise financeira de 2008. Encarou, sem negacionismo ou inércia,  a atual pandemia, reconhecendo-lhe a gravidade e a urgência. Deixará o Governo, depois de todo esse tempo,  sem uma mácula de corrupção ou fracasso em sua biografia.

Angela Merkel não foi a primeira mulher a ocupar a chefia de governo de uma potência europeia. Porém, Merkel trouxe algo novo à politica mundial e ao papel da mulher no cenário do jogo de poder mundial, ainda essencialmente masculino e teatral. Merkel é absolutamente avessa a demonstrações de poder. Dela , também, não se deve esperar discursos grandiloquentes, declarações polêmicas e aparições triunfais ou de surpresa. Firmeza de princípios, obstinação  e discrição são marcas que, usualmente, associamos aos alemães e, talvez por isso, eles se sintam tão bem representados por sua líder.  Saiu do script apenas uma vez: em Março do ano passado fez um discurso, temperado com doses precisas de emoção e razão, conclamando os alemães a enfrentarem com seriedade, responsabilidade e união a grave pandemia da COVID 19. Foi considerado, pelos jornalistas de todo o mundo, como o discurso do ano .

Nasceu em Hamburgo na Alemanha Ocidental, a capitalista, em 1954 (êta ano de gente boa). A história de sua família é um caso raro entre os alemães. Os Kasner  mudaram- se para a Alemanha Oriental(comunista)quando Angela tinha apenastrês anos. Seu pai, um pastor luterano, assumiu uma igreja numa cidade ao norte de Berlin. Portanto, a jovem Angela cresceu numa sociedade fechada e austera sem as liberdades e a exuberante riqueza da parte ocidental do país. Teve pouco envolvimento com a política em sua juventude, embora nunca tenha negado sua filiação, por oportunismo,  ao Partido Comunista, único permitido em seu pais. Sem essa filiação, ela não teria tido as facilidades para acesso à Universidade de Leipzig, onde graduou-se e concluiu doutorado em Física Quântica.  Também não teria feito intercâmbio acadêmico em países do Leste Europeu e não teria adquirido fluência em russo.

Com a queda do Muro em 1989, entrou em definitivo para a politica elegendo-se para o Parlamento da Alemanha unificada, onde está até hoje. Em países parlamentaristas, o Chefe de Governo é membro do Parlamento, com direito a  voto como qualquer outro deputado.

Mantém o nome Merkel do primeiro marido, mas, atualmente, é casada com Joachim Sauber, um professor de Química, tão discreto quanto ela. Não teve filhos nos dois casamentos, mas seus compatriotas a presentearam com o apelido “ Mutti”, algo como “ Mamãe” em alemão. 

Em 2015 foi eleita pela Revista Time a “ Personalidade do Ano”. Por dez anos consecutivos, vem sendo considerada a mulher mais poderosa do mundo. Mas, não abre mão de preparar o café da manhã para o marido e de cozinhar todos os finais de semana. Vinhos tintos franceses, futebol pela TV e assistir, anonimamente, óperas em teatros de Berlin compõem a rotina do casal.

Ainda é cedo para esse tipo de lista, mas é bastante provável que essa austera e controlada dona de casa, cientista e política  alemã de 67 anos estará entre as grandes personalidades do século XXI, ainda que passe os próximos anos de sua vida fazendo compras em supermercados, cozinhando, assando bolos de ameixas e indo à ópera com o marido, como nunca deixou de fazer. 

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Cristina Bonafé
Cristina Bonafé
7 meses atrás

Ótimo texto! E ótima escolha para representar a competência humana feminina! Parabéns!!

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