Há exatos quarenta anos, numa radiante manhã de sexta-feira, depois de uma madrugada tensa, no aguardo do médico e com o apoio de um recém conhecido, que viria a se tornar, por essa e por outras atitudes, um grande amigo, eis que chega o menino que transformaria a minha vida. Escrevendo assim, parece que ele chegou do nada. Claro que não. Muito aguardado, fruto de amor, de um casamento e vida em comum, ainda em fase de aprendizado e adaptação. 

Naquele tempo não era comum pais assistirem o parto, menos ainda as fotos e filmagens dos primeiros minutos do recém-nascido, que hoje fazem parte da “programação”.  Confesso que, ainda que fosse moda e dever, eu daria um jeito de não estar presente. Coisas de homem da minha geração. Tanto é, que aproveitei um pedido da jovem mamãe e fui comprar-lhe um chinelo desses de se usar em hospital. Quando voltei, meia hora depois, uma enfermeira chamou-me no quarto e fez menção de me entregar um “embrulho”.

Travei. O que era aquilo? Ela, com os braços estendidos, eu estático. Não reconheci de imediato um bebê. Olhei de novo, tomei coragem e peguei. Para nunca mais largar. Começava ali a mais extraordinária jornada de toda a minha vida: a paternidade. Uma nova vida, um novo mundo. Nem me refiro à responsabilidade, que havia com quem dividir e partilhar. Era uma sensação de plenitude, de preenchimento como se, finalmente, houvesse uma razão concreta para seguir em frente, um motivo para realizar coisas, enfim, uma obra a construir.

No começo, mais medo que encanto. A angústia da primeira coleta de sangue, feita na virilha do bebê, que confirmou a icterícia. Coisa simples, tratada em casa com banho de sol. Que lembrança deliciosa, estar frente à janela erguendo aquele bebê em direção aos raios do Sol. Minutos de êxtase e esperança. Êxtase de felicidade pelo momento; esperança pela vida que se descortinava. Outros momentos de angústia viriam, muitos deles frutos da ansiedade e da ignorância sobre quão fortes são os laços que nos prendem à vida. Outros, mais reais, que tiravam o sono, o foco e a alegria do casal até que o pediatra salvador ou minha querida e inesquecível sogra interviessem. Por sinal, a presença, o cuidado, o carinho e o amor que aquela vovó, enquanto viveu, dedicou ao neto, é daquelas coisas que emocionam e marcam para sempre.

Depois a vida correu rápido: os brinquedos, os super-heróis, a escola, o acampamento, o clube, as viagens pelo futebol, o colégio, a universidade longe

de casa, as namoradas anuais, o estágio mais longe ainda, o diploma e o trabalho, de novo longe de casa (que sina, a do pai). Muito rápido. Gostaria que tivesse passado mais devagar, gostaria de ter estado mais perto ainda, de ter apoiado e “carinhado” mais, de ter criticado e exigido menos, enfim, eu gostaria de ter dado mais do que recebi. 

Passei mais duas vezes pela felicidade de ser pai. Tão felizes, encantadoras e encantadas como a primeira. Menos medo, mas, também, menos sogra. Dona Olívia nunca escondeu sua predileção. Para as meninas, ela “apenas” cumpriu a “obrigação” dos primeiros trinta dias e recebeu em sua casa, durante a infância, por inúmeras noites e finais de semana. Severa e ranzinza com as meninas, abria as portas e servia a mesa, com a maior satisfação, para os amigos que o neto trazia da rua na hora do almoço. Assim ela garantia que ele se alimentaria bem antes de voltar para o futebol na rua.

Nos anos que se seguiram, mais experientes, mas não menos ansiosos, tentamos fazer o melhor. Acho que fizemos. Senão o melhor, tudo o que nos foi possível fazer. Criamos seres que se tornaram melhores que nós. Quem pode querer maior legado? 

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Riberto Peixoto
Riberto Peixoto
1 mês atrás

Pra que o conheceu jovem, surpresa, mas das boas em saber que aquele rapaz cheio de energia nas rodas de futebol e do Bar Estudantil, agora se apegava ao mistér de pai. Parabéns

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