O paulista, nascido em Jundiaí, Max Gehringer, é comentarista da Rádio CBN e do Fantástico, na TV Globo. Conhecido por seus artigos em revistas como Época, Exame, Você S/A, dentre outras.  Administrador de empresas, atuou como executivo no Brasil e no exterior. É autor de vários livros, dentre eles “Emprego de A a Z” e “Comédia Corporativa”. Eleito um dos 10 Top Voices Influencers de 2019 do LinkedIn Brasil. É um dos palestrantes mais requisitados do país. O humor e a sensibilidade dos textos de Max vêm de sua vivência prática num mundo que ele conhece degrau por degrau: seu primeiro emprego, aos 12 anos, foi de auxiliar de faxina. O último: presidente da Pullman.

Para nós, do blog “Outros Olhares”, é uma honra tê-lo como nosso primeiro entrevistado, entre outras razões, por sua linguagem fácil, direta e fluente, longe de rebuscamentos, mas com estilo e conteúdo reconhecidos. Linguagem que, adequada ao tempo presente, fala, em todas as mídias e redes sociais, para todas as gerações.

  • P – Pensando no público mais maduro de nosso blog, e baseado em sua longa experiência ajudando a melhorar as relações no mundo corporativo, que oportunidades devem surgir ou podem buscar, no pós pandemia, esse conjunto de pessoas que ainda quer fazer a diferença na vida e no mundo? Que outros olhares podemos esperar que o mundo tenha para quem passa dos 60? 
  • R – Desde que comecei a responder perguntas de leitores e ouvintes, muito antes da pandemia, minha recomendação a quem tinha mais de 50 anos e perdeu o emprego sempre foi esta: “Não tente buscar outro igual. Se você trabalhou em uma empresa de grande porte, procure uma de porte médio. E esteja disposto a reduzir o salário que você recebia”. Outra sugestão era esta: “Se uma nova oportunidade não aparece, entre no ramo de consultoria. Você tem mais de 30 anos de experiência, e isso vale muito. No Brasil há dezenas de milhares de empresas de porte médio que não podem pagar grandes agências de consultores, mas pagariam de bom grado a alguém com muita vivência prática que possa oferecer dicas úteis de curto prazo”.  É sempre bom enfatizar que o menor índice de desemprego, proporcionalmente ao número de profissionais, está na faixa dos 50 aos 65 anos. Ao contrário do que normalmente se lê, empresas não dispensam empregados porque eles atingiram uma determinada faixa etária. Não existe esse tipo de discriminação ostensiva no mercado de trabalho. A questão é que, se outro emprego não aparece para os que são demitidos, a tendência é culpar a idade, e isso acaba impedindo o que diz o blog, ‘outros olhares’ para buscar opções que não sejam a de ter o mesmo tipo de emprego e remuneração de antes.

P – Houve uma expansão significativa do e-commerce nesse período pandêmico. Você acredita que a normalização sanitária, após a aplicação das vacinas, vai manter essa tendência de aceleração de crescimento dessa atividade? Ainda há espaço para o varejo tradicional?

  • R – Vários setores vêm se expandindo há anos, dentre eles o e-commerce e o ensino à distância, por exemplo. No começo deste século, as pessoas tinham receio de fornecer o número do cartão de crédito porque acreditavam que ele poderia ser usado para fins ilícitos, ou porque temiam que o produto chegasse com defeito e não houvesse com quem reclamar. Na mesma época, ai por 2002, o ensino à distância representava 2% do total de estudantes. Atualmente, já passou dos 15%. O avanço da tecnologia e a maior facilidade de buscar informações na Internet convenceram muita gente a mudar dos sistemas analógicos para os digitais, e isso é o que se observa no e-commerce. Ele pode ter dado um salto em função da pandemia, mas isso é um fenômeno temporário. Depois dela, o e-commerce continuará a crescer no ritmo anterior, porque em muitos casos é cômodo e porque a nova geração está mais que acostumada a resolver assuntos pela via digital. Traçando um paralelo, quando os supermercados surgiram há 60 anos, temia-se que o pequeno varejo de bairro iria ser engolido pelas grandes redes. Não só não aconteceu, mas o que se vê hoje são grandes redes montando lojas menores, “de bairro”. Sempre haverá clientes para tudo, desde que o atendimento seja eficaz.
  • P – Certamente você reconhece essas frases: “Homens são ótimos para encontrar explicações; mulheres são ótimas para resolver problemas”. Max, ainda é assim ou, atualmente, as coisas estão mais embaralhadas?
  • R – Ainda é assim. É da natureza. Eu costumo dizer que quem inventou a reunião de trabalho só pode ter sido um homem, porque mulheres não gostam de perder tempo com conversas fiadas, que normalmente tomam mais da metade do tempo de qualquer reunião. A ascensão das mulheres a postos de liderança no mercado de trabalho é evidente, como as estatísticas provam. É claro que sempre haverá quem diga “é, mas as mulheres ainda ganham menos…”. É verdade, mas não tão menos quanto ganhavam há vinte anos, e esse é o ponto. Não dá para consertar tudo rapidamente, e é preciso avaliar o rumo das tendências para notar que, se a distância está diminuindo, é porque está havendo progresso. A próxima geração já mostrará mais equilíbrio, mas eu reconheço que paciência não é um dos soft skills mais comuns no mundo corporativo.
  • P – O Google substituiu a impagável Professora Etelvina e suas dicas certeiras?
  • R – Eu utilizo muito o Google, mas não acredito na primeira informação que leio. Há muita coisa errada e há muita informação comercial disfarçada em forma de estatística. Quando me deparo com um título de matéria como “72% das pessoas pretendem viajar no próximo verão”, eu vou garimpando até encontrar a fonte primária da informação, e acabo descobrindo que é uma agência de turismo. Minha dica é esta: pesquisar a pesquisa. Outra coisa que faço, quando busco informações de muitos anos atrás, é ler jornais da época. A Biblioteca Nacional tem uma coleção online de jornais desde 1820, com um serviço de busca muito bom. Dá, por exemplo, para localizar a primeira vez que uma palavra apareceu impressa em um jornal. ‘Sustentabilidade’ é o tipo da palavra que parece que nasceu ontem, mas uma busca de três minutos nos revela que ela já era mencionada em 1874. Não é erro de digitação, é 1874 mesmo. Os textos da Professora Etelvina para a revista Época surgiram dessa forma, duvidando do que aparecia na Internet e indo buscar a origem nos jornais de tempos idos.

P – Ao lado de sua carreira executiva e de sua trajetória como escritor, comentarista e palestrante de assuntos corporativos, você escreveu, também, sobre outros assuntos, entre eles o futebol e as agruras para se falar e escrever bem o Português. Você tem outros olhares sobre a vida? Quais, por exemplo?

R – Eu sempre gostei de escrever, desde o primeiro ano do ensino fundamental. Além de 21 livros sobre o mundo corporativo, publiquei obras sobre a história das Copas do Mundo, sobre etimologia e sobre as infames reformas ortográficas do Português, que começaram há 110 anos e parece que nunca vão acabar. Na verdade, foi uma reforma e meia dúzia de puxadinhos  livros; Recentemente, um jovem me disse. “Eu não acredito que um dia se escreveu pharmacia com ph”, e eu disse para ele que ingleses e franceses ainda escrevem, e não se sentem nem um pouco anacrônicos por causa disso. Ele pensou que eu estava brincando e ficou convencido que eu estava mesmo quando eu mencionei que ‘ditongo’ em inglês tem um ph e um th, ‘diphthong’. Mas o fato de eu escrever muito, e de pesquisar muito para escrever, me mostra que ‘novo normal’ não é um acontecimento súbito. É algo que vem ocorrendo desde que três pilares tecnológicos se encontraram e se uniram – o telefone celular, a internet e as redes sociais. O novo normal é algo que vem mudando todos os dias há vinte anos, e continuará a mudar empurrado pelo que novas tecnologias puderem nos proporcionar. Só precisamos estar atualizados para não ficar pelo caminho. 

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Doug SP
Doug SP
11 meses atrás

Excelente conteúdo!

Anônimo
Anônimo
11 meses atrás

Ótima entrevista! ˆ_ˆ

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