Qualquer concurso para escolher a música que mais representa São Paulo vai, invariavelmente, ser vencida por “Trem das Onze” de Adoniran Barbosa e “ Sampa” de Caetano Veloso. Aparecerão, ainda, entre as dez primeiras a linda “ Ronda” de Paulo Vanzolini e a tropicalista “ São Paulo, meu amor” de Tom Zé. Podem aparecer algumas outras na lista, mas longe da preferência e paixão que a maioria dos paulistanos devotam à essas quatro canções.

Além dessa preferência, há um intrigante aspecto comum a elas. Poderíamos imaginar, no primeiro momento, que suas letras exaltassem os encantos e os atributos positivos da cidade, ainda que saídos da imaginação dos autores. Assim são as músicas dedicadas ao Rio de Janeiro, a Salvador, a Recife e tantas outras cidades e estados. Ary Barroso, Lamartine Babo e Dorival Caymmi foram os grandes mestres do samba-exaltação.

Por aqui, as coisas não são bem assim. Vamos dar uma passada rápida nas letras: “Moro em Jaçanã, se eu perder esse trem que sai agora as onze horas, só amanhã de manhã”; “ E foste um difícil começo, afasta o que não conheço. E quem vem de um sonho feliz de cidade aprende depressa a chamar-te de realidade”; “E neste dia, então, vai dar na primeira edição, cena de sangue num bar da Avenida São João” e, por fim, “ Que se agridem cortesmente, morrendo a todo vapor. E amando com todo ódio, se odeiam com todo amor.  

 

Encantos? Maravilhas? Glórias? Nenhuma. Temos um malandro dividido entre a mamãe e a amada, numa cidade com poucos trens, o soteropolitano quase arrependido, buscando poesia no concreto (achou a poesia concreta dos irmãos Campos), um provável crime numa das mais emblemáticas avenidas da cidade e a aglomerada solidão recheada de amor e ódio. Que belo quadro, hein. Ainda mais se considerarmos que os autores conheciam bem a cidade que cantaram. Entre eles, um único paulistano de nascença, catedrático e doutor em Zoologia pela Universidade de Harvard (estranho para um bamba, não?), o descendente de italianos de Valinhos,  o baiano que explodiu para o Brasil a partir de um teatro na Consolação e outro baiano, com igual talento e menos sucesso, mas muito mais ligado à cidade que escolheu para viver.

Seria necessário um livro inteiro para tentar explicar as razões do duro retrato que esses mestres e, por vezes nós mesmos, fazemos da nossa adorada cidade. Não é o caso agora. Basta que fechemos os olhos, ouçamos música e letra dessas pérolas da MPB. E pensemos no quanto é generosa e acolhedora essa velha senhora, que nasceu e se tornou adulta num ambiente paupérrimo. E ao ficar rica nos últimos 130 anos, manteve a austeridade e seriedade de quem conheceu e percorreu todos os caminhos e veredas, serras e rios, pasmaceira e progresso, sem deixar de confiar no seu futuro.

P.S: Cobraram-me a citação de “São Paulo da garoa”. Provavelmente, porque imaginam que esse é o título da muito cantada “Eh, São Paulo” de Alvarenga e Ranchinho. Não é.  A música “ São Paulo da garoa” é de autoria de Tonico e Tinoco. Bonita também, mas muito menos conhecida. Não encontrei registro de que a grande paulistana, Inezita Barroso tenha gravado alguma delas. Mas, Inezita gravou outra linda música dedicada à nossa cidade: “ Perfil de São Paulo” de um compositor chamado Bezerra de Menezes. Conhecem?  

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Humberto
Humberto
8 meses atrás

Por favor, considerem uma correção no final do primeiro parágrafo: não existe crase em ” ….devotam à essas quatro canções”. São raríssimos os casos em que se admite o uso da crase antes de pronomes. Vamos corrigir o texto.

Vera Lucia Ulhoa
Vera Lucia Ulhoa
8 meses atrás

Humberto sempre impecável!!!

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