Quando, segundo o Gênesis, Abraão ouviu o chamado de Deus para deixar sua parentela na Caldéia (atual Iraque), onde vivia e seguir para Canaã, a Terra Prometida, o primeiro patriarca bíblico, decerto não podia prever as consequências de seu gesto na história da Humanidade. Abraão não apenas criou o conceito de religiões monoteístas, como plantou as sementes para o surgimento de diversas nações. Sua numerosa descendência, assim como lhe prometera Javé, povoou a região pelos séculos seguintes. Abraão teve dois filhos, Isaac e Ismael, antes de morrer aos 175 anos. De Isaac descendem os judeus; de Ismael descendem os árabes.

Os descendentes de Ismael formaram várias outras nações, enquanto os judeus se tornaram um povo único a partir da unificação das doze tribos de Israel e de sucessivos conflitos entre primos e irmãos de diversas gerações. Ainda que não haja comprovação histórica, presume-se que a história de Abraão se inicia entre os séculos XIX e XVII A.C. Alguns séculos depois, o segundo patriarca, Moisés, liderou a libertação de seu povo, então escravizados no Egito, e sua volta à Canaã, onde já se encontravam estabelecidas diversas tribos árabes. Ainda assim, Israel conseguiu consolidar-se como uma nação, atingindo seu apogeu nos reinados de Davi e Salomão, por volta do século X antes da Era Cristã.

Pode-se dizer, então, que durante vinte séculos, desde Abraão, árabes e judeus conviveram no mesmo território, quase sempre submetidos à dominação de impérios maiores como os egípcios,  persas, gregos e romanos. A origem da atual divisão, sangrenta e, aparentemente, insolúvel, situa-se no século primeiro da Era Cristã, quando após duas revoltas contra Roma, os judeus foram expulsos da região. Assim, do ano 130 D.C até final do século XIX, durante a Diáspora judaica, os árabes da região, agora denominados palestinos, foram predominantes diante da minoria de judeus, que conseguiram permanecer em suas terras.  As Cruzadas dos séculos XI e XII e a obsessão por Jerusalém – cidade sagrada para os dois povos −só fizeram aumentar as divisões religiosas e seculares da região.

No final do século XIX surgiu o movimento sionista, que pregava o retorno dos judeus à Terra Prometida, agora dominada pelo Império Otomano. Com a derrota deste império na Primeira Guerra Mundial, a região passou para o domínio britânico, que de certa forma, estimulou, com alguns limites, a fixação dos judeus na região, desagradando, fortemente aos árabes, a quem vinham prometendo independência por estes tê-los ajudado na guerra. Por duas décadas, árabes e judeus brigaram entre si e com a Grã-Bretanha, até que veio a Segunda Guerra e com ela, a tragédia do Holocausto. Após o final da guerra, o mundo se solidarizou com a causa judaica de ter sua própria pátria. A Grã Bretanha saiu da região e a ONU, em Novembro de 1947, aprovou a criação de dois estados independentes com a partilha do território, divisão que não agradou os árabes.

Antes que fosse criado o Estado Palestino, os judeus, em Maio de 1948 declararam a criação do Estado de Israel, prontamente reconhecido pelas potências ocidentais e pela União Soviética. Foi o suficiente para que as nações árabes vizinhas (Síria, Egito e Líbano e Jordânia) invadissem a Palestina para expulsar, em definitivo, os judeus. Israel, venceu a chamada Guerra da Independência, causando o êxodo de mais de um milhão de palestinos, expulsos de suas terras e casas para não mais voltar até os dias de hoje. É importante lembrar que o Egito e a Jordânia, também, se apoderaram de terras palestinas como a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, que Israel reconquistou, militarmente, em 1967. Entre 1967 e 1994, não houve avanços na causa palestina, mas os Acordos de Oslo de 1993, garantiram o restabelecimento de uma autonomia relativa para os territórios palestinos, exceto Jerusalém Oriental. 

Esta é a situação atual, no qual dois grupos palestinos distintos governam a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, sendo a primeira comandada pelo Hamas, partido político e movimento armado, que não admite sequer a existência do Estado de Israel. Em razão disso, periodicamente, ocorrem graves conflitos como as Intifadas e este que ocorre agora.  O Hamas lança foguetes e mísseis contra cidades israelenses, aos quais Israel responde com força desproporcional, atingindo, também, instalações civis, causando destruição e morte, sobretudo de crianças e outros inocentes. A tragédia humanitária, nos territórios ocupados, parece não ter fim e nem mais são lembrados os dois milhões de palestinos que sobrevivem no exílio e nos campos de refugiados.

Passados quatro mil anos da chegada de Abraão, a Palestina precisa de paz. Uma paz que contemple os dois estados, os dois povos irmãos, a liberdade e a tolerância religiosa. Afinal, foram os primeiros povos do mundo a reconhecer a existência e a Palavra do Deus Único, Pai de toda a Humanidade. É hora de colocar isso em prática. Antes tarde do que nunca. 

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