Por Simone Lira

Toninho era gerente de vendas e viajava semanalmente a trabalho. Saía sempre na segunda-feira bem cedo e voltava na sexta-feira à noite.

Seu destino era diferente a cada semana. Viajava para os vários estados e sempre trazia para casa uma gostosura típica do lugar onde estivera.

É numa viagem para o Rio de Janeiro que começa essa história. Toninho foi trabalhar em uma cidade do interior do Rio e lá, almoçou em um restaurante simples com a melhor sobremesa que já tinha provado: pudim de tapioca.

Toninho ficou maravilhado com o pudim. Passou a almoçar naquele restaurante só por causa da sobremesa. Um dia, chamou a dona do restaurante e fez uma proposta:

– Posso comprar um pudim inteiro para levar para São Paulo?

A mulher achou aquilo bem estranho. Quis oferecer a receita do pudim para facilitar, mas ele queria mesmo era o quitute inteiro, com forma e tudo.

Finalmente chegou a sexta-feira. Beleza! O voo sairia do Rio de Janeiro às 17hs. Dava tempo de almoçar, pegar o pudim, ir para o aeroporto, despachar a bagagem e voltar tranquilo. 

O plano foi colocado em prática. Toninho ligou para a esposa e disse:

-Estou levando um pudim inteiro. Você vai adorar.

Porém, tudo começou a mudar de figura quando ele chegou no aeroporto e viu que o seu voo era internacional. O voo vinha da Itália e fez uma escala no Rio de Janeiro. 

Todo voo internacional possui protocolos de segurança e eles são bastante rigorosos. Os funcionários trabalham para que todos os passageiros respeitem as regras. Uma delas diz que nenhum passageiro pode entrar na cabine do avião com substâncias líquidas ou pastosas, devido ao risco de explosão. Agora complicou! Conhece coisa mais pastosa do que um pudim?

A funcionária que controlava o acesso dos passageiros ao avião, fez a pergunta fatídica:

-Senhor, o que tem nessa sacola?

-É um pudim.

-Um pudim? Mas o senhor não pode embarcar com um pudim. Vai ter que jogá-lo no cesto de descartes.

-O que? Jogar fora meu pudim? De jeito nenhum! Mas não mesmo! Moça, esse pudim foi feito pela minha avó para a minha esposa que está grávida, com desejo de comer pudim.

-Sinto muito. Se o senhor não quiser jogar fora, vai ter que despachá-lo na mala.

– Mas minha mala já está no avião!

-O senhor volta no balcão da Companhia aérea e pede para buscarem a mala, guarda o pudim e despacha de novo.

-Então eu vou. E que esse avião não saia sem mim, hein!

Toninho tentou amolecer o coração da funcionária com aquela mentirinha, mas não teve jeito. Então agora, só lhe restava correr para dar tempo de despachar o danado.

No balcão, conseguiu recuperar a mala. Amarrou a sacolinha de qualquer jeito, colocou o pudim no meio das roupas e colou umas dez etiquetas de “FRÁGIL”, na esperança de que alguém tivesse cuidado ao manusear a mala. 

-Pode despachar minha mala! Esse pudim vai chegar em São Paulo de qualquer jeito!

Voltou para a fila de embarque e desta vez não foi barrado. Pensou:

-A funcionária quase ganhou um pudim de tapioca, só que não foi desta vez! Mas nem que a vaca tussa vou deixar meu pudim!

Quando o avião aterrissou em São Paulo, Toninho buscou a bagagem na esteira. Saiu logo, pois a sua esposa já estava aguardando. 

Quando ela olhou para ele, perguntou:

-Cadê o pudim?

-Está na mala.

-O que? Você ficou doido?

Chegando no carro ele abriu a mala. Toda a calda do pudim havia vazado nas roupas. Ali mesmo, no estacionamento, deu um fim na sacolinha e fechou a mala de novo, com todas as roupas meladas de calda. Foram para a casa com o pudim na mão. Ao chegar em casa, desenformaram o pudim de tapioca e ele estava meio duro, seco, sem calda, mas estava bom! 

-Acho que se a gente torcer as meias e as cuecas, podemos recuperar a calda! 

Depois de brincar com essa ideia absurda, Toninho disse que na próxima viagem ao Rio, irá trazer outro pudim, desta vez com a calda bem fechada em um pote à parte. Também vai se certificar de que viajará em um voo nacional, assim poderá trazer seu pudim juntinho dele, como um bebê.

Simone Lira: Fonoaudióloga há 30 anos. Autora de dois livros com histórias para atuar em terapia para dificuldades de leitura e escrita. Agora se aventura a escrever para outros públicos.

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Renata
Renata
2 meses atrás

É a cara do Lira!!! Já experimentei torresmos que ele trouxe!!!

Humberto Mariano
Humberto Mariano
2 meses atrás

Estória de dar água na boca. Deliciosa como pudim de tapioca.

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