Autor: Austregésilo Brotas de Alcântara Munhoz

Sobre o Autor: Filho de aristocrática família baiana, que migrou para São Miguel Paulista em meados dos anos 40. Fez fortuna no ramo de lazer e   diversões para adultos, com seus escritórios corporativos localizados na Rua 3 (atual José Otoni), onde os rapazes maus de famílias boas encontravam-se com as meninas boas de famílias más.

Houve um tempo, até os anos 70, em que a palavra boteco tinha um tom pejorativo. Bar era uma coisa e boteco outra. Não existiam, ainda, os botecos chiques e seus cardápios metidos a besta.  Na verdade, o boteco estava apenas um mísero degrau acima da birosca da favela. Alguns tinham bons petiscos, cerveja gelada, duas ou três marcas de cachaça e outros destilados de segunda categoria. Mas, o que chamava a atenção eram os ovos coloridos e o pote de vidro com sardinha e “azeite”, que passavam todo o ano em cima do balcão, aguardando quem tivesse a coragem de consumi-los.  Higiene, aliás, era considerada frescura. 

Chegamos a frequentar vários deles, em geral, durante a madrugada, quando os bares já estavam fechados. Inesquecível, o do Seu Eduardo e seu único prato, o mocotó, servido durante as 24 horas do dia, numa solitária mesa comunitária de doze lugares com uma lata de farinha de mandioca no centro. A fina flor da sociedade da Vila Nitro Operária, malandros e mulatas, as damas da noite, os boêmios saídos do Hawaí e, nós, rapazes perdidos em busca da saideira, dividíamos, harmoniosamente, a mesa e a farinha, tomando muita cerveja até o raiar do Sol.

Mas, além dos sórdidos e simpáticos botecos de então, nós tínhamos o nosso bar. Aquele em que passávamos a maior parte da semana e quase todo o final dela. Claro que nos intervalos, nós trabalhávamos, estudávamos, namorávamos e nos divertíamos, mas quase sempre, ao final de cada um desses programas era no Bar Estudantil, que todo mundo se reunia. Um bar diferente. Múltiplo, democrático, bem equipado, bem administrado e, principalmente, organizado. Parece um contrassenso falar em bar organizado, mas esse era o diferencial do Estudantil. 

Era lá em que todas as “tribos” se encontravam e conviviam em plena harmonia: comunistas carolas, corintianos inteligentes, conservadores elegantes, radicais de direita generosos, heterossexuais assumidos, palmeirenses comedidos, socialistas de butique, vagabundos orgulhosos, santistas jovens, homossexuais de dentro e fora do armário, intelectuais de almanaque, tricolores plebeus, sambistas diplomados, comendadores de jornal, brancos com eira e beira, pretos brilhantes e amarelos festeiros. Enfim uma fauna, que em nenhum outro lugar do mundo poderia conviver com tamanha harmonia e cordialidade. Havia até a porta dos que apenas bebiam e a porta dos que, também, “fumavam”, assim, com aspas mesmo.

Mulheres e brigas lá eram raríssimas, quase inexistentes. A ausência de mulheres, nunca entendi, mas de brigas, sim.   Era por causa dos donos, estes um capítulo à parte: família nissei, irmãos e uma irmã, diferentes entre si, sendo uns mais, outros menos afáveis.  Mas iguais no rigor quanto ao ambiente, à higiene e a qualidade do que se comia e bebia lá. Também não havia a “pendura”. Até podia acontecer, mas em circunstâncias excepcionais, para clientes muito antigos. Era, sem qualquer dúvida, a melhor caipirinha servida no pequeno espaço compreendido entre o Monte Caburaí (RR), o Arroio do Chuí (RS), a nascente do Rio Moa (AC) e a Ponta do Seixas (PB).  Limão, pinga honesta, açúcar e gelo.

Quem vê e participa das discussões estúpidas, estéreis e truculentas dos tempos atuais, não consegue imaginar as discussões que aconteciam no Estudantil.  Temas espinhosos e importantes como Política, Futebol, Mulher, Filosofia, Direito e Sociedade eram discutidas em alto volume, independentemente da ditadura militar da época. Ficaram, na memória, inesquecíveis, os maiores e melhores polemistas do bar. Amigos de uma vida inteira dividiam-se em discussões, que podiam tomar o dia inteiro, sem qualquer desavença maior, até que as 23 horas em ponto ─ isso lá é hora de bar fechar? ─, o japonês de plantão pegava a mangueira de água e começava a lavar o piso. Era a senha para ir embora. Em quinze minutos, as portas baixavam com todo mundo prá fora, ainda que lá estivesse o Presidente da República. Era assim o nosso bar. Como tudo que era bom, acabou no meio dos anos 80.

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Wilson Pereira da Silva
Wilson Pereira da Silva
6 meses atrás

SAUDADES !!!

Carlos Miguel Goncalves
Carlos Miguel Goncalves
6 meses atrás

Carlos Miguel Gonçalves

arlindo rachid miragaia
arlindo rachid miragaia
6 meses atrás

Parabéns pelo magnifico texto….muitas saudades….

Rui Shimoda
Rui Shimoda
6 meses atrás

Kkkkk. Adorei ler o artigo.
Fiz parte dessa história, do outro lado do balcão.
Só algumas correções :
Aos sábados e domingos fechávamos mais tarde em função do bailinho da Nitro e outros.
O pessoal vinha para o “fim de noite”, reunindo para confraternizar.
Nos anos 70, a meninada estava mais “avançada” e passaram a frequentar o bar, embora ainda timidamente.

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